Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas, as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema, decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, com sombrinha infantil e coxas à mostra.

Meus filhos me repudiaram envergonhados, meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço. Só melhoro quando chove.


Poema de Adélia Prado




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Manoel de Barros

"Não gosto de palavra acostumada."

 
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"Mais ternura, menos tolice". Carol Balarini @2020